sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A teoria do Iceberg de Hemingway





























Esses dias, uma leitora comentou que havia lido aquele post sobre o leitor passivo e me lembrei da teoria de Hemingway ao responder que o leitor não é apenas aquele que faz uma crítica construtiva (no caso de apontar alguma falha de escrita que o escritor cometeu). O leitor critico é aquele que está atento ao que há por trás das palavras, ao que está nas entrelinhas.

Se um escritor sabe o suficiente sobre o que está escrevendo, ele pode omitir as coisas que ele sabe ao leitor. Se o escritor está escrevendo realmente o suficiente, vai passar a sensação de que a está declarando. Já o escritor que omite coisas porque ele não sabe, deixa apenas marcas superficiais nas suas páginas.

Ernest Hemingway, para quem não conhece, foi um grande escritor americano, falecido em 1961. Famosíssimo por seu poder de síntese, é o autor de um dos contos mais curtos. 

"Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados."

Percebam o poder dessa curta frase, mas que pode contar muita coisa. Afinal, por que nunca foram usados? Por que está à venda?


"Como ele começou como um escritor de contos (histórias curtas — nem todas são tão curtas quanto essa acima!), Hemingway acreditava que aprendeu a "obter o máximo do mínimo, como podar linguagem, como multiplicar intensidades e como dizer só a verdade de uma forma que permitisse dizer mais do que a verdade". Hemingway se referia ao seu estilo como a teoria do iceberg: na sua escrita os fatos flutuam sobre a água, mas a estrutura de apoio e simbolismo operam fora de vista. Ou seja, o escritor mostra somente o necessário para se contar uma história, mas sem entregar a essência, o principal, o que lhe sustenta.

Escrevendo "The Art of the Short Story, ", ele explica: "Há algumas coisas que eu encontrei para ser verdadeiro. Se você deixar as coisas importantes ou eventos que você conhece, a história é reforçada. Se você deixar ou ignorar algo, porque não o sabe, a história se torna inútil." — e com isso, ele se referia à parte "escondida" de suas histórias. Se você não consegue relacionar o que o autor diz com alguma coisa, a história se torna inútil, porque você deixa de compreendê-la.

Enfim, há diversos modos de fazer o que Hemingway fazia. Por exemplo, aplicando a técnica da fotografia na escrita (é possível isso, tia Amanur? Sim, é possível! u.u): a observação oferece uma "multi-focal", ou a realidade fotográfica. Sua teoria do iceberg é o fundamento sobre o qual ele constrói os cenários e as personagens através de imagens estáticas. O fotográfico "instantâneo"cria uma colagem de imagens. E isso é possível com a pontuação interna (dois pontos, vírgulas, hífens, parênteses) que são  usados em favor de sentenças declarativas. As sentenças dependem umas das outras, como os eventos de compilação para criar um sentido do todo. Existem várias vertentes de uma história, onde um "texto incorporado" aponta para um ângulo diferente.

Por exemplo:

Sasuke estava lá, sobre a janela.  — percebam como essa pequena frase cria uma forte imagem da personagem.

Agora vejam:

Sasuke estava lá, sobre a janela. Triste. Solitário. — cada um daqueles pontos, marcam imagens diferentes, mas ligadas por sua significação. :)

Ele também usa outras técnicas cinematográficas de "corte" rápido, de uma cena para outra, ou de "emenda" de uma cena com outra. Omissões permitem ao leitor preencher a lacuna, como se a responder às instruções do autor, e criando uma prosa dimensional a três (o escritor, o texto e o leitor).

Sasuke estava lá, triste e solitário. E eu aqui, louca para pegar em sua mão. Abraçá-lo. Beijá-lo. Louca para lhe mostrar que a felicidade estava ao seu lado. — não há sintaticamente uma conexão entre as orações, mas em significações, podemos fazer a conexão, e imaginar a Sakura ao lado dele, beijando e abraçando, e dizendo a ele que está ali, sem a necessidade de eu dizer no texto que ela é a felicidade dele, certo?

"No final do verão daquele ano, vivia em uma casa onde a aldeia que parecia atravessar o rio e da planície para as montanhas. No leito do rio havia seixos e pedregulhos, secos e brancos ao sol, e a água estava clara a que se movimenta azul nos canais. As tropas passaram pela casa e na estrada e da poeira que levantou pó das árvores."- Abertura de A Farewell to Arms mostrando de Hemingway o  uso da palavra "e" em sua literatura, e em seus escritos pessoais. Habitualmente, ele usava a palavra "e" no lugar de vírgulas, e ess uso serve para transmitir imediatismo. Isso causou más interpretações de gente que achava que ele tentava eliminar emoções. Só que a intenção de Hemingway não era eliminar as emoções, e sim retratá-las de forma mais científica (por assim, dizer). Hemingway achava que seria fácil e sem sentido descrever as emoções, então, ele esculpiu colagens de imagens a fim de captar "a coisa real, a seqüência de movimento e de fatos."

Deu para entender? Tentei sei mais clara o possível, mas se ficar alguma dúvida, podem perguntar! ;)
Apesar de que, né, não sou nenhuma especialista na área. Na verdade, quanto mais estudo sobre literatura, mais triste fico ao perceber o quanto ainda tenho a evoluir. T_T Mas, enquanto não me transformo em uma Hemingway  ou Poe da vida, permaneço com minhas historinhas óbvias. T__T

Tirei boa parte da teoria deste link, fazendo algumas alterações.

Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...